Uma criança de 12 anos foi atropelada numa passadeira em Braga. Dias antes, outra criança tinha sido atropelada noutra passadeira semaforizada. “Atrás de uma bola vem uma criança, temos de conseguir imobilizar o veículo quando vemos a bola” – ouvimos nas aulas teóricas do código da estrada.

Uma idosa foi atropelada na passadeira na Rua 25 de Abril. Um jovem foi abalroado enquanto seguia de mota na Rotunda do Santos da Cunha. Um carro despistou-se na Avenida João Paulo II, outro na Avenida João XXI e um outro capotou no centro histórico.

São alguns exemplos da vasta realidade: Braga regista uma média de 1 sinistro a cada 15 horas. Dos 4.964 veículos envolvidos em sinistros, 78% foram veículos ligeiros, 15% motas, 2% pesados e 5% outros veículos, onde se incluem bicicletas e trotinetes.

Estes números não servem para ilibar ninguém, mas para recordar que o principal problema de segurança rodoviária em Braga continua associado ao tráfego motorizado, responsável por 95% dos veículos envolvidos em sinistros, e não aos modos que tantas vezes dominam o debate público. Ninguém gosta de bater com o carro ou de atropelar uma pessoa. Perante estes números, temos de agir.

Sempre que se fala de segurança rodoviária, ouvimos o mesmo argumento: “é preciso esperar pelos estudos, pelos relatórios ou pelos planos”. Esperar também é uma decisão. Cada despiste, colisão ou atropelamento revela uma escolha política: a de não agir antes de ser tarde. A segurança rodoviária não é apenas uma questão técnica. É uma decisão política sobre o concelho que queremos.

Braga não tem apenas um problema de mobilidade, tem um problema de escolhas políticas sobre o nível de risco que está disposta a aceitar nas suas ruas e avenidas. Podemos culpar os comportamentos individuais, mas se durante décadas continuamos a assistir aos mesmos problemas nos mesmos locais, talvez seja altura de questionar também o sistema que os produz.

O modelo Safe System, adotado por alguns dos países mais seguros do mundo, parte de uma permissa: as pessoas erram. Sempre erraram e sempre irão errar. A função das políticas públicas não é exigir condutores, peões ou ciclistas perfeitos, mas criar infraestruturas que reduzam a probabilidade do erro e a gravidade das suas consequências. Não é apenas saber quem falhou, é perceber porque é que esse erro teve consequências tão graves e como podemos evitar que se repita.

Sabemos onde ocorrem os atropelamentos, quais são as avenidas onde se registam velocidades incompatíveis com o contexto urbano, onde faltam atravessamentos seguros, acalmia de tráfego, continuidade pedonal ou melhores condições para o transporte público. Sabemos também que Braga gera cerca de 250 mil deslocações diárias de carro inferiores a 3 km.

Sabemos que a velocidade mata, que ruas desenhadas para velocidades elevadas geram mais risco, que cidades dependentes do carro produzem mais tráfego, mais conflitos e mais exposição ao perigo. O que falta é decidir qual a prioridade que damos à segurança das pessoas quando essa prioridade entra em conflito com a velocidade do tráfego e com a manutenção do modelo atual.

Os planos e os estudos são importantes, mas nenhum concelho se torna mais seguro porque um relatório foi entregue. Torna-se mais seguro quando existem decisões políticas claras sobre o tipo de risco que estamos dispostos a aceitar.

Quando uma pessoa é atropelada numa passadeira, o problema já não é falta de informação. É falta de decisão. Os estudos ajudam a decidir. Não podem servir para adiar decisões. Porque esperar também é uma decisão. E na segurança rodoviária adiar a decisão pode custar vidas.