Há ruas em Braga onde, num dia de verão, é quase impossível caminhar ao sol. Há praças sem sombra e avenidas onde o calor parece sair do chão. Todos sentimos que os verões estão cada vez mais difíceis.
Mas será apenas uma consequência das alterações climáticas? O aquecimento global existe, mas as opções urbanísticas locais agravam ou atenuam os seus efeitos. Porque é que algumas ruas são suportáveis no verão e outras parecem fornos? Porque o urbanismo também influencia a temperatura que sentimos.
O asfalto, o betão, os estacionamentos acumulam calor. As fachadas dos edifícios refletem o calor. E quando as ruas não têm árvores, ou têm poucas árvores, então o calor aumenta. Uma árvore não produz apenas sombra. Produz conforto térmico e reduz a temperatura sentida no espaço público. Fica mais fresco estar debaixo de uma árvore num dia de verão.
Braga cresceu, construiu mais habitação, equipamentos e infraestruturas. Esse crescimento era necessário. Mas não foi acompanhado por uma aposta equivalente na cobertura arbórea e na adaptação climática do espaço público.
Existe hoje uma referência internacional conhecida como regra 3-30-300: ver 3 árvores a partir de casa, viver num bairro com 30% de cobertura arbórea e ter um espaço verde a menos de 300 metros. Braga ainda enfrenta dificuldades para cumprir este objetivo em muitas zonas urbanas.
Braga candidatou-se a Capital Verde Europeia e os próprios dados municipais mostram que cerca de 55% da população urbana vive a menos de 300 metros de um espaço verde. É um resultado positivo. Mas significa também que quase metade da população urbana não beneficia dessa proximidade. E mesmo junto de parques e jardins continua a faltar sombra em muitas ruas do quotidiano.
Braga tem espaços verdes importantes e de qualidade. O problema é a sua distribuição e a falta de cobertura arbórea em muitas ruas e avenidas. Basta comparar diferentes ruas e avenidas da cidade para perceber a diferença de temperatura sentida.
Poucas pessoas escolhem caminhar sob temperaturas próximas dos 40°C quando não existe sombra. Entramos assim num ciclo vicioso: menos sombra significa mais calor, menos deslocações a pé e maior dependência do automóvel.
O calor excessivo não é apenas desconforto. É um fator de risco para crianças, idosos e pessoas com doenças cardiovasculares. Podemos reduzir a temperatura sentida através da sombra, das árvores e dos pontos de água. O melhor ar condicionado urbano continua a ser uma árvore.
Perante episódios de calor extremo, é natural que os municípios adotem medidas de emergência para proteger a população. Piscinas gratuitas, distribuição de água ou sistemas temporários de refrescamento podem ajudar a reduzir os impactos imediatos. Mas essas respostas não substituem a adaptação estrutural do território. Uma cidade preparada para temperaturas mais elevadas não é a que instala mais equipamentos de emergência. É a que precisa menos deles porque foi desenhada para ser mais fresca, mais sombreada e mais resiliente.
A investigação realizada sobre Braga confirma que a substituição de superfícies naturais por áreas impermeáveis agrava o efeito de ilha de calor urbana. Fazem falta refúgios climáticos. Uma cidade sem sombra é uma cidade que expulsa as pessoas da rua. As árvores não são decoração, são infraestrutura climática.
Ainda hoje continuamos a requalificar e inaugurar ruas, avenidas e espaços públicos sem garantir níveis mínimos de cobertura arbórea. Continuamos a investir milhões em pavimentos enquanto a árvore surge muitas vezes como elemento secundário, quando deveria ser considerada uma infraestrutura essencial desde o primeiro desenho do projeto.
A questão já não é saber se Braga vai enfrentar mais calor. Vai. A questão é saber se continuaremos a desenhar o território da mesma forma ou se teremos coragem para o adaptar. As alterações climáticas não são uma ameaça futura. Já estão presentes nas nossas ruas, nos nossos passeios e nas nossas praças.
Aquilo que hoje sentimos nas ruas de Braga é, em parte, o resultado das opções urbanísticas acumuladas ao longo dos últimos doze anos. As prioridades que moldaram a cidade continuam a orientar muitas das decisões atuais. Se queremos uma Braga mais preparada para o calor, talvez seja tempo de mudar as prioridades.
