Em Braga, quando não se quer fazer ou não se sabe como fazer, diz-se que é impossível.
Há décadas que se fala numa Ecovia do Cávado. É impossível, dizem. Os proprietários não deixam. Curiosamente, do outro lado do rio e nos concelhos vizinhos conseguiram encontrar soluções.
Um sistema de transporte público estruturante, com corredores dedicados, maior capacidade e prioridade ao transporte coletivo? Impossível. Nem parece que Braga tem mais de 150 anos de história de transporte público coletivo, dos carros americanos aos elétricos, dos tróleis aos autocarros.
Um grande parque urbano nas Sete Fontes, pensado para as próximas gerações? Impossível. Primeiro é preciso urbanizar à volta. Depois logo se vê.
Uma estação de Alta Velocidade colocada no sítio certo e perto do centro, sem repetir os erros de colocar a estação no meio de campos? Impossível. Uma ligação ferroviária moderna a Guimarães? Impossível. Corredores BUS contínuos e prioritários? Impossível. Uma rede ciclável coerente? Impossível. Passeios contínuos e acessíveis em todas as freguesias? Impossível. Passadeiras seguras e iluminadas em todo o concelho? Impossível.
Há corredores BUS em dezenas de cidades europeias. Há redes cicláveis funcionais em centenas. Há ecovias junto a rios. Há passadeiras que protegem os peões. Há sistemas de dados abertos nas maiores cidades portuguesas e muitas cidades europeias. Porque razão tudo aquilo que funciona noutros locais continua a ser apresentado como impossível em Braga?
Entre 2022 e fevereiro de 2026 foram registados cerca de 150 sinistros envolvendo trotinetes particulares. É um número que merece preocupação. Cada sinistro é um sinistro a mais. Mas a resposta aos problemas deve ser proporcional à sua dimensão e orientada para a sua resolução. No mesmo período, foram registados cerca de 5000 sinistros no concelho. A esmagadora maioria envolve veículos motorizados. No entanto, ninguém propõe suspender os automóveis. Seria absurdo.
As trotinetas partilhadas apresentavam problemas e existiam incumprimentos dos contratos assinados. A solução não foi reorganizar, fiscalizar ou corrigir. A solução foi acabar, mesmo que com isso não se acabem com os sinistros nem se torne Braga mais segura. Organizar parece impossível.
Queremos conhecer os dados que fundamentam decisões públicas, mas isso também parece impossível. Os dados existem, os sensores existem, mas raramente são divulgados de forma aberta e sistemática. Não existe em Braga um portal de dados abertos comparável ao de Lisboa ou de muitas cidades europeias. Sem dados acessíveis não há escrutínio, não há avaliação e não há decisões informadas.
São exemplos de uma cultura de governação que frequentemente confunde dificuldade com impossibilidade. Em vez de perguntar “como resolvemos?”, perguntamos “como acabamos com isto?”. Em vez de melhorar, desistimos. A questão raramente é técnica. É quase sempre política. Os territórios evoluem quando os decisores deixam de dizer que é impossível e começam a perguntar como pode ser feito.
Braga não precisa de mais impossíveis. Precisa de mais ambição, mais planeamento e mais capacidade de execução. O que distingue os territórios que avançam dos que ficam para trás não é a ausência de problemas. É a forma como antecipam e respondem aos problemas.
Todos os territórios enfrentam conflitos de utilização do espaço público, desafios de mobilidade, resistência à mudança e dificuldades técnicas. Uns resolvem-nos. Outros declaram-nos impossíveis. Aquilo que hoje é apresentado como impossível em Braga já funciona em muitas outras cidades.
Quando em Braga se diz ser impossível fazer o que já foi feito noutros locais, talvez o impossível seja apenas uma escolha, ou uma desculpa para não fazer.
