Sempre que se aprova um loteamento, uma urbanização, uma superfície comercial ou um novo eixo urbano, está-se também a aprovar as viagens futuras, a forma de mobilidade, o modo de transporte que se vai convidar a usar, as necessidades de estacionamento, congestionamento, a viabilidade do transporte público e os padrões de mobilidade para décadas.

Braga não é um território particularmente disperso, mas o modelo de crescimento que está a ser preparado pode aumentar ainda mais a dependência do automóvel. A densidade é necessária num território que se quer funcional e sustentável, mas só a densidade não chega. É possível criar territórios densos e ter dependência automóvel. 

Essa é a realidade de Braga, que na zona urbana é densa, mas as suas infraestruturas continuam desenhadas de forma a tornar o automóvel praticamente obrigatório nas deslocações quotidianas. A densidade anunciada, por exemplo, para a zona entre a rotunda da Confeiteira e Infias prevê a mesma lógica: dependência e pressão automóvel. Deveria ser pensada uma densidade trabalhada em torno de um transporte público regrante – um eixo de transporte público estruturante, capaz de organizar o crescimento urbano.

A mistura de usos (comércio, serviços e habitação) e de estratos sociais, a proximidade entre as origens e os destinos, a continuidade urbana, a qualidade do espaço público e a capacidade que o transporte público tem em transportar pessoas a tempo e horas são factores fundamentais para o crescimento denso, pacífico e sustentável de um território.

Em Braga, o crescimento previsto no atual PDM – Plano Diretor Municipal não assegura critérios operacionais nem infraestruturas capazes de concretizar a mobilidade sustentável. Vamos ter mais urbanizações sem corredores BUS, logo sem frequência, sem fiabilidade, sem legibilidade e sem centralidades. Continua-se a expandir o território sem garantir proximidade funcional, criando bairros e freguesias que são apenas dormitório, onde há a necessidade de usar o automóvel para tudo. Os serviços, as escolas, o comércio estão longe.

Um crescimento sem rede pedonal, sem rede ciclável e sem infraestrutura para os transportes públicos, levará a problemas de segurança, onde as crianças não terão autonomia e onde teremos mais sedentarismo, mais congestionamento e os mesmos problemas de mobilidade.

O PDM prevê crescimento sem transporte público forte, sem rede ciclável e sem rede pedonal planeadas. Os Vereadores do Amar e Servir Braga propuseram a criação de espaços-canal ferroviários no PDM e manter as redes pedonal e ciclável no plano. A proposta foi recusada, mantendo-se intacta a opção política de continuar a estruturar o crescimento urbano em torno apenas e só do automóvel. Com essa opção mono-modal vamos continuar presos nas filas de trânsito, na sinistralidade rodoviária e na dependência, por obrigação, do uso do carro.

Ao mesmo tempo, foram aprovadas em reunião de Câmara propostas de casas sem passeios na via pública. Algumas com lugares de estacionamento encostados a muros. Achamos que o mínimo exigível no concelho é que possamos todos sair a pé de casa e circular a pé, em cadeira de rodas ou com um carrinho de bebé em segurança.

O território que aprovamos hoje determinará a forma como viveremos durante décadas. Se continuarmos a separar urbanismo e mobilidade, estaremos a licenciar antecipadamente mais trânsito, mais dependência do automóvel e menos qualidade de vida. As filas de amanhã começam nas decisões urbanísticas de hoje.