A palavra “estratégia” deriva do grego, strateegia, e do latim, strategi, com significados militares, mas aqui pretendo falar da palavra “estratégia” como “um conjunto dos meios e planos para atingir um fim”.
Ou seja, quando há uma estratégia, há um conjunto de planos e meios preparados para se atingir um determinado fim. Ao nível da mobilidade em Braga qual é o fim que se pretende? Qual o objetivo a atingir e em que prazo?
Estas são perguntas que carecem de resposta para depois se desenharem os planos e ajustar os meios necessários. Ao longo do tempo é preciso ir calibrando os planos e os meios para se conseguir atingir os fins.
Estava escrito nos documentos do Município de Braga que o objetivo era ter, em 2025, uma transferência do carro para outros modos de transporte na ordem dos 25%, pretendiam ter 10% das deslocações a serem efetuadas de bicicleta e ter 20 Milhões de deslocações a serem efetuadas nos TUB. Havia uma aparente estratégia, mas nenhum destes objetivos foi atingido. Porquê? Não houve ação nem capacidade de execução.
Na altura de obras verificamos que não há coerência. Por exemplo, no Fojo estão a criar, e bem, passadeiras e ciclovia, mas a ciclovia fica desconectada de outras. Para além disso, esqueceram-se dos transportes públicos, como já o tinham feito nas obras da Avenida da Liberdade e em Lamaçães.
Esta falta de coerência, de rede, de intervenções sistematizadas e de falta de investimento estruturante leva a que, por exemplo, percursos de 4 km de autocarros em Braga estejam a demorar 50 min, quando deviam demorar 10, isto por ficarem presos no trânsito. Quase que mais valia ir a pé, mas mesmo para isso era preciso existirem passeios.
Cerca de 70% das deslocações são feitas em automóvel e a aposta municipal aparenta ser continuar a aumentar o já insustentável uso do automóvel, visto que todos os outros investimentos não têm uma estratégia, uma lógica e uma coerência.
A opção de dar prioridade ao automóvel mantendo túneis e avenidas transformadas em auto-estradas, onde se colocam separadores centrais de betão e rails, manterá e agravará a realidade dos atropelamentos e teremos um congestionamento infernal, sem alternativa às deslocações. Este caminho já foi trilhado em Braga, em Portugal, na Europa e no mundo inteiro. O resultado nunca mudou. Insistir nesse caminho é uma estratégia obsoleta e com provas dadas de que é um falhanço.
Atualmente não há nenhum documento onde esteja definida a estratégia, as metas e os objetivos para a mobilidade em Braga. Isso revela que não há prioridade em resolver os problemas de mobilidade de Braga. Isto é preocupante, porque assim Braga perderá para os concelhos vizinhos.
Desenhar uma estratégia é muito mais do que subcontratar um documento estratégico para a mobilidade urbana em Braga e muito mais do que encher a boca com generalidades.
Só uma forte aposta na transferência de deslocações para modos sustentáveis, com meios e planos para o fazer, garantem segurança, a sustentabilidade económica e a qualidade de vida. É preciso semear desde já as mudanças para colher os frutos no futuro.
Hoje os jovens podem ir para a escola de autocarro, mas mal podem, estes passam para o transporte individual, porque a oferta não está ajustada às necessidades de quem trabalha. Não é confiável.
Por muitos “cicloexpressos” que tenhamos em Braga, nenhum pai vai permitir que o filho/a vá ou regresse da escola sozinho de bicicleta se não houver segurança infraestrutural no seu percurso. Para isso é preciso investir na reorganização da infraestrutura.
Braga precisa de uma visão estratégica para a mobilidade, que permita às pessoas não estarem reféns do carro. Dar opções às pessoas, opções sérias, confiáveis.
Braga tem que fazer uma opção clara para eliminar congestionamentos de trânsito e tornar as avenidas e ruas seguras, onde as pessoas não são atropeladas nem têm receio de circular.
A mobilidade induz-se, quando se sabe o que se quer.
