Uma criança que não pode ir sozinha para a escola não vive num concelho verdadeiramente seguro. Quando os pais têm medo de deixar os filhos andar na rua, o problema não é das crianças. É do território que construímos.

Hoje, em muitas zonas do concelho de Braga, uma criança que queira deslocar-se sozinha enfrenta ruas sem passeios, atravessamentos perigosos, velocidades excessivas, estacionamento desordenado e um espaço público desenhado quase exclusivamente para o automóvel. Nenhum pai deixa um filho correr risco de vida.

Isso ajuda a explicar porque tantas crianças são hoje permanentemente transportadas de carro entre casa, escola, atividades e centros comerciais. O Professor Doutor Carlos Neto chamou a isto “a geração do banco de trás”: crianças que crescem sem autonomia, sem contacto com o espaço público e sem liberdade para explorar o território.

Esta realidade não apareceu por acaso. O desenho urbano influencia diretamente a forma como as pessoas vivem e se deslocam. Um território onde é perigoso andar a pé ou de bicicleta induz à dependência do automóvel. E essa dependência começa logo na infância.

Por isso temos defendido, a partir do Amar e Servir Braga, que todas as novas habitações tenham passeio e condições mínimas para deslocações pedonais seguras. Parece básico, mas ainda há demasiadas ruas no concelho onde simplesmente não existe espaço digno para caminhar.

Podemos criar programas como o Pedibus ou o Cicloexpresso, mas sem infraestrutura adequada, as crianças nunca ganharão verdadeira autonomia. No final do dia regressam novamente no carro dos pais, porque o território continua a não lhes oferecer segurança suficiente para regressarem a pé ou de bicicleta.

O problema não é apenas a mobilidade. Uma criança que cresce sem rua perde muito mais do que independência. Perde conhecimento do território. Não conhece os atalhos, as vielas, as árvores, os cheiros, as poças depois da chuva ou os pequenos espaços onde antes se inventavam jogos e amizades.

Os territórios aprendem-se a pé. É no espaço público que as crianças desenvolvem autonomia, orientação, confiança, sociabilidade e até capacidade de resolver problemas. Uma infância permanentemente fechada no banco de trás cria adultos mais sedentários, menos autónomos e mais afastados da comunidade onde vivem.

O urbanismo não é neutro. O modo como desenhamos Braga está a decidir que infância têm as nossas crianças e que futuros adultos teremos.

Um concelho onde as crianças não podem andar sozinhas não é apenas um concelho inseguro. É um concelho que perdeu confiança no seu próprio espaço público.

Acredito num território onde as crianças possam voltar a caminhar, brincar, descobrir e crescer com autonomia, segurança e liberdade. 

Se os nossos filhos, as nossas crianças, não podem andar, pedalar e brincar na rua, então estamos a falhar enquanto comunidade.