Sempre que sou obrigado a pegar no carro para me deslocar em Braga tenho uma luta interna e faço um esforço grande para poder cumprir com os limites de velocidade. E sinto que muitos mais condutores passam pelo mesmo. Isto explica-se com a necessidade de estarmos atentos ao ambiente urbano e quase nunca olharmos para o velocímetro. E quando olhamos, percebemos que ultrapassamos o limite. 

Eu, pecador, me confesso, também me acontece ir tão atento à estrada ou à conversa e, quando me apercebo, abrandar. Muitas são as vezes que tenho carros colados atrás, impacientes, a acelerar, a buzinar, mesmo indo eu no limite dos 50 km/h. Um limite de velocidade deveria ser a velocidade máxima de circulação nessas vias, não a velocidade constante de circulação…

Não adianta encher o Concelho de sinais verticais com velocidade 30 km/h ou 50 km/h e manter o desenho urbano que ainda hoje temos, esperando que de repente todos passem a olhar para o velocímetro. O desenho urbano convida-nos a todos a acelerar. 

O desenho das vias que temos hoje está feito para que se circule a uma velocidade que não se adequa à vida e ao ambiente de uma localidade. Há crianças a irem para a escola e pessoas a fazerem deslocações diárias a velocidades mais baixas. E é o próprio ambiente construído que também afasta as pessoas de estarem a brincar no espaço público.

O excesso de velocidade é a causa número um da sinistralidade em Portugal. Isto é um facto.

Claro está que podemos limitar-nos a dizer que somos todos obrigados a cumprir com as velocidades de circulação e com as regras de trânsito. Pôncio Pilatos também lavou as mãos e empurrou a decisão para outros, numa tentativa de auto-desresponsabilização. 

Em Braga é preciso um esforço extra para se cumprir com o limite de velocidade. No final do dia, a forma como as nossas ruas e avenidas estão construídas levam a que um determinado comportamento seja adoptado. Se o Município de Braga agir e reorganizar as vias para se passar a circular abaixo dos limites de velocidade, então todos vamos ganhar.

Ao reduzir a velocidade efetiva de circulação, aumentamos a fluidez do trânsito (é necessário menos espaço entre veículos, logo a capacidade de circulação na via aumenta), reduzimos a gravidade da sinistralidade, reduzimos a sinistralidade, reduzimos a poluição e aumentamos a segurança rodoviária. 

Ao mesmo tempo, e para se conseguir esta efetiva redução de velocidade, vai-se garantir melhores condições para se andar a pé e de bicicleta, introduzindo medidas efetivas nesse sentido. Para além disso, podem ser criadas as condições para que o transporte público cumpra com os horários, aumente a velocidade comercial e passe a ter mais frequência com os mesmos meios. Tudo isto ajustando o desenho urbano para a mobilidade do século XXI. 

E não, não se consegue nenhuma mudança com smiles que não funcionam, com semáforos que não são inteligentes, com invenções de linhas vermelhas no eixo da via, nem com a proliferação de sinais de zona 30 sem se mexer no desenho da via.

Muito menos esperando que de repente o ser humano ganhe consciência e passe a cumprir com as regras do código da estrada, sem se fiscalizar, sem atuar e sem mudar o desenho urbano. Isto é válido para qualquer parte do Mundo. No resto da Europa cumprem mais as regras, pois o próprio desenho urbano está implementado para reduzir o risco de incumprimento e há muita mais fiscalização. As pessoas passam a cumprir para não terem de pagar multas pesadas relacionadas com a velocidade. Há muito que as cidades europeias fiscalizam intensivamente as velocidades praticadas nos seus centros urbanos. 

Em Braga, os Vereadores anunciam que há registos de excessos de velocidade 3 vezes acima do limite (que é crime), e nada fazem quanto a isso a não ser dizer que “a culpa é das pessoas”. Nem sequer o registo dessa velocidade se traduz em consequência para o infrator.

É preciso transformar as nossas avenidas e as nossas ruas para não conduzirmos as pessoas a comportamentos de velocidade excessiva. Com um bom desenho urbano, a fiscalização é também diminuta, pois o próprio desenho é educativo. Isto demora a implementar, em Sevilha demorou 18 meses, mas só dessa forma se consegue um ambiente construído mais seguro. 

A mobilidade induz-se.