default

O Campo da Vinha é um espaço afetivo de Braga. A história remonta a D. Diogo de Sousa, no século XVI. Era uma das maiores praças do país. 

Ao longo de 500 anos, no Campo da Vinha, localizado no Centro Histórico de Braga, foram construídas a Igreja e o Convento do Pópulo, a Igreja de São Salvador e o Convento de São Salvador, que conhecemos como Lar Conde Agrolongo. Surgiu ainda o GNRation e o Palácio dos Vilhenas Coutinhos onde funcionou o Tribunal. Este espaço tem importância histórica, social e cultural que ocupa um lugar no imaginário da cidade. É um sítio único.

Em 1997 a Câmara decidiu construir um parque subterrâneo para automóveis no Campo da Vinha. Para isso a Câmara deu o subsolo em troca de 70 lugares de estacionamento. Esses 70 lugares já não estão em posse da Câmara. Os arranjos à superfície descaracterizaram toda a praça. Há 28 anos que não temos uma grande praça em Braga, porque foram acrescentados edifícios e obstáculos na Praça, que se quer livre.

Para além de ser um sítio com história e importância, é um sítio com comércio, que não pode ser descurado com obras atrás de obras que não melhoram o espaço público. O espaço público pode atrair ou dissuadir clientes.

O executivo anterior aprovou, na sua última reunião, o projeto de requalificação de TODA a Praça Conde Agrolongo (Campo da Vinha) por quase 3,5 milhões de euros. Esse projeto, que não esteve em discussão neste novo executivo, não transforma o Campo da Vinha numa grande praça, não organiza o espaço público nem cumpre com o planeamento de cidade definido no PDM – Plano Diretor Municipal. É uma intervenção meramente cosmética. Outras praças foram intervencionadas na Europa, como a Praça Kleber em Estrasburgo, ou mais recentemente várias praças em Paris ou em Barcelona, em que a intervenção arejou a praça. Aqui quer-se fazer ao contrário.

Entretanto, na primeira reunião do novo executivo, foi votada a não adjudicação de uma obra de 2,6 milhões de euros numa parte da Praça, cujos documentos se referiam a “Largo do Pópulo”. A não adjudicação deve-se a não terem existido concorrentes, ou seja, o concurso ficou deserto.

Num outro ponto era votado o relançamento desse mesmo concurso, com o mesmo valor de 2,6 milhões, para o mesmo espaço. Exatamente o mesmo valor que se tinha acabado de votar a não adjudicação porque o concurso tinha ficado deserto.

Queremos gastar mais de 6 milhões de euros em obras que em nada valorizam o Campo da Vinha, só porque sim, sem uma ideia clara da valorização económica e social deste espaço único?

Quer no PDM – Plano Diretor Municipal em vigor, quer no que está em discussão pública, está previsto que no “Campo da Vinha” passem linhas de transporte público de alta capacidade. 

Seria expectável que, fosse qual fosse o projeto para o “Campo da Vinha”, surgissem os espaços para esse transporte. E seria também expectável que, fossem quais fossem os projetos para o “Campo da Vinha”, estes trouxessem um espaço público mais amplo, mais qualificado, mais funcional, capaz de reforçar a experiência urbana e a apropriação social.

É preciso repor a grande praça, modernizando a memória, criando referências culturais, “limpando” os obstáculos e mamarrachos que existem no meio e impedem que ali exista uma praça. Não podemos ter medo de espaços vazios.

É necessário efetuar uma discussão e uma revisão do projeto, tendo como ponto de partida a premissa de voltarmos a ter uma grande praça em Braga, com transportes públicos a servi-la.

A revitalização de uma grande praça, o seu redesenho, tem de ter como objetivo melhorar a qualidade de vida e não prejudicar quem dali faz a sua vida. É preciso tornar a praça mais eficiente, sustentável, inclusiva. O processo de redesenho tem de resgatar o valor histórico e cultural, ao mesmo tempo que os moderniza e transforma.

O Campo da Vinha tem de ser um centro de convívio, de encontro social, de debate político e de promoção de eventos culturais ou até de actividades comerciais como são as feiras, tendo sempre em conta o tecido social, económico e comercial que ali subsiste e resiste.

Não há uma grande cidade sem uma grande praça e o Campo da Vinha será a grande praça de Braga.