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Em Braga fazem-se, em média, 600 mil deslocações por dia. A forma como essas deslocações são feitas diz mais sobre o território do que o número em si. Destas, 79% são feitas dentro do próprio concelho, a pé, de bicicleta, em transporte público ou de carro. A forma como estas deslocações se distribuem pelos diferentes modos de transporte chama-se repartição modal.

Em 2025, os TUB registaram cerca de 14,8 milhões de passageiros transportados, uma média de cerca de 40 mil validações por dia. Apesar do crescimento da procura, o transporte público representa apenas cerca de 7% das deslocações diárias.

O automóvel continua dominante. Cerca de 70% de todas as deslocações são feitas de carro, sendo mais de 250 mil correspondem a percursos até 3 km. Muitas destas viagens não acontecem por preferência, mas por falta de alternativas reais.

Todos os dias, milhares de pessoas entram no carro porque sentem que não têm outra opção. Pais que levam os filhos à escola porque não existem condições para irem a pé ou de bicicleta. Trabalhadores que demoram demasiado tempo no autocarro porque este continua preso no trânsito. Pessoas que vivem relativamente perto do destino, mas que não conseguem fazer esse percurso de bicicleta sem medo das velocidades praticadas nas avenidas urbanas.

A rede de transporte público continua com dificuldade em competir. As vias BUS são descontínuas, fragmentadas e insuficientes para garantir prioridade real ao transporte coletivo.

A rede ciclável permanece desarticulada e pouco conectada. Em muitos casos, obriga crianças e adultos a circular em vias rápidas e desconfortáveis, onde a sensação de insegurança afasta potenciais utilizadores.

Também andar a pé continua a ser difícil em demasiadas zonas do concelho. Em várias ruas, sobretudo na periferia, continuam a faltar passeios. Em pleno século XXI, ainda há pessoas obrigadas a caminhar na faixa de rodagem. Ao mesmo tempo, cerca de 80% do espaço público continua dedicado à circulação e ao estacionamento automóvel.

Esta realidade não resulta apenas de escolhas individuais. Resulta, sobretudo, da forma como o território foi desenhado ao longo das últimas décadas. Braga cresceu demasiado orientada para o automóvel: urbanizações dispersas, equipamentos afastados, grandes superfícies exclusivas para o comércio, tudo desligado entre si. São décadas de investimento centrado quase exclusivamente na fluidez automóvel que criaram um território onde o carro se tornou obrigatório.

Mas nada disto é inevitável.

O congestionamento não é apenas uma questão de trânsito. É tempo perdido. É ruído. É poluição. É um espaço público ocupado. É dependência económica do automóvel. É desigualdade para quem não conduz. É a insegurança rodoviária. É perda de qualidade de vida.

Mudar a repartição modal não acontece de um dia para o outro, mas é possível. E exige um objetivo claro, estratégia e investimento continuado. Conseguimos essa mudança investindo em três frentes em simultâneo: transporte público, mobilidade em bicicleta e mobilidade pedonal.

Com um sistema de transporte público mais estruturante, rápido, frequente e com prioridade real, incluindo soluções como um modelo de tram-train. Com uma rede ciclável coerente, conectada e segura, apoiada num sistema de bicicletas partilhadas. Com melhores condições para andar a pé, garantindo passeios acessíveis e travessias seguras em todas as ruas.

Uma cidade moderna não é a cidade onde toda a gente usa carro. É a cidade onde cada pessoa pode escolher como se quer mover. Onde uma criança pode ir para a escola a pé ou de bicicleta. Onde um idoso consegue atravessar a rua em segurança. Onde o transporte público funciona bem. Onde quem precisa do carro também circula melhor porque existem alternativas reais.

Se queremos melhorar a mobilidade, precisamos não apenas de mais dados, mas de melhores perguntas, visão estratégica e capacidade de execução.

Porque a forma como nos movemos molda a forma como vivemos. Molda o tempo que temos. Molda a saúde. Molda a segurança. Molda a liberdade. Molda o território.

A mobilidade não acontece por acaso. Planeia-se. Constroi-se. Induz-se.