Aqueles que pedalam nas Avenidas poderiam contar, num mundo utópico, com o civismo, a boa educação e boa conduta das pessoas que utilizam essas Avenidas. Poderiam contar com o respeito pelas regras do código da estrada, por cumprir com os limites de velocidade e tudo fazer para evitar sinistros.
Podiam contar que as pessoas fizessem tudo para evitar os 600 sinistros com vítimas que vão acontecendo anualmente em Braga, mas não o fazem.
Não vivemos nesse mundo e a realidade é que usar a bicicleta, ou até mesmo andar a pé nestas Avenidas, faz com que escorra aquele fio de suor gelado coluna abaixo. Com uma simples pedalada ao longo destas Avenidas o nosso coração dispara, e não é por estarmos a fazer um exercício mais intenso: é pelo medo. Afinal, o risco que percepcionamos de que podemos não chegar ao fim da viagem, existe mesmo. E isso afasta as pessoas de usarem um modo de transporte como a bicicleta ou até o andar a pé, os modos que ativam o corpo, ou até a trotinete.
Se o território não oferece segurança para andar a pé e de bicicleta, e se temos medo de usar esses modos, então eles não vão ser opção para a maioria.
No meio desta realidade, continuamos a ouvir que a culpa é das pessoas que não cumprem com as regras do Código da Estrada. As pessoas não deixam de ter a sua responsabilidade pelo desrespeito, pela falta de civismo, pela falta de respeito pelo próximo, pela falta de empatia. No entanto, isso não é desculpa, nem desresponsabiliza os Municípios pela falta de fiscalização, ou pela falta de intervenção física na via pública que garanta que nenhuma pessoa pode exceder-se e incumprir as regras do código da estrada ou do mais básico respeito entre pares.
O facto de um cidadão ser irresponsável não justifica a falta de preocupação dos Municípios com o dever de cuidado, o dever de vigilância pelas infraestruturas públicas utilizadas pelos seus cidadãos. O desenho dessa infraestrutura induz determinados comportamentos e pode prevenir ou evitar outros comportamentos. Tudo depende de como é desenhada, ou neste caso, redesenhada.
Somos humanos, erramos, aprendemos, melhoramos, mudamos. Na forma como nos deslocamos, somos levados pelo que a cidade, o território, o ambiente construído nos oferece. E essa infraestrutura não deveria ser a mesma que era há mais de 30 anos. Em Braga é esta a realidade em mais de 90% da infraestrutura.
Se não se oferece transportes públicos rápidos, fiáveis (que cumpram sempre o horário), que demoram sempre o mesmo tempo, com muita frequência e vários horários ao longo de todo o dia, então também estes não vão ser opção quando se iniciarem rotinas. Se o território oferece ruas e avenidas onde o carro tem 80% do espaço e pode fazer tudo, então as pessoas vão usar o carro.
Redistribuir o espaço público, criando espaço para as pessoas andarem a pé confortavelmente, de bicicleta em segurança nas ciclovias que têm de ser bem desenhadas e construídas, e nos transportes públicos que têm sítio próprio ou canais livres para se movimentarem, não é impôr a sua utilização. É garantir que estes três modos também têm condições para serem utilizados.
Para isso, os 80% de espaço que o carro tem, terão de ser reduzido, e a liberdade para se usar o carro termina na liberdade de se usar todos os restantes modos de transporte. Não se pode querer uma liberdade hegemónica do uso de um veículo ineficiente, atropelando os direitos e liberdades de se utilizar qualquer outro veículo. Também na distribuição de espaço público é necessário haver equilíbrio e equidade. E isso salva vidas.
Para que este medo deixe de existir é necessário reconstruir e redistribuir bem o espaço público. Não basta ir criando ilhas isoladas de coisas, como a isolada e descontínua via bus da Avenida 31 de Janeiro, ou a isolada e desconectada ciclovia da Avenida da Liberdade. Ou numa avenida olhar para a bicicleta e ignorar o transporte público e na outra fazer o contrário. Criar ilhas e não ter coerência leva a que as pessoas não entendam o sentido das mesmas e acabem a virar-se contra essas opções, que acabaram por não trazer solução para o problema, mas agravaram o problema.
É preciso que haja coerência e conectividade do que se vai fazendo. É preciso planear, testar, analisar e agir! Fazê-lo para os modos pedonal, ciclável e o transporte público.
Quantos mais precisarão de ser atropelados e morrer? Quantos precisarão de ser atropelados e ficar para sempre numa cama? Quantos mais jovens com 13 anos terão de ficar sem ver e com sequelas para a vida? Quantas mais pessoas terão de ganhar parafusos nos ossos?
Qual é o objetivo de um decisor, político ou técnico, quando, mesmo depois destas realidades, faz promessas de reorganização dos espaços, e estas nunca acontecem? Mesmo depois disso ainda não serão responsáveis?
Só se acaba com o medo agindo, corrigindo, melhorando. E aí passa a haver esperança e confiança. Num concelho que ultrapassou a barreira desafiante dos 200 mil habitantes, é fundamental planear e agir constantemente.
A mobilidade induz-se, e não cabe mais indução do uso do carro neste concelho.
