No passado dia 31 de julho decorreu o lançamento do meu livro que contém todas as crónicas e reflexões sobre a mobilidade que tenho vindo a escrever e publicar em jornais desde 2015. São 10 anos de reflexão, de aprofundamento, de estudo da mobilidade a pé, de bicicleta e em transportes públicos. Pelo meio destas crónicas publiquei ainda uma dissertação de mestrado e uma tese de doutoramento, as duas na área da mobilidade, que me permitiram aprofundar sobre o tema. 

O que penso sobre a mobilidade em Braga e sobre as soluções para a mesma estão quase todas no livro, que está disponível em várias livrarias de Braga e também na WOOK. Há um ou outro apontamento também sobre a mobilidade em Portugal, mas nada muito aprofundado. Ao fazer uma leitura no livro facilmente se aperceberão da forma holística com que hoje olho para a mobilidade, pensando nas pessoas com mobilidade condicionada, nas pessoas que andam a pé, naquelas que poderiam e que andam de bicicleta, nas que andam de autocarro, de comboio, de transporte público e, também, nas que andam de carro.

E este é um dos problemas do Município de Braga, não olhar para todos os modos e quando apresenta soluções, apenas pensa num modo de transporte ou apenas numa parte de todos os modos de transporte. Percebe-se isso quando se vê o que foi feito quer na Avenida da Liberdade, quer na Avenida 31 de Janeiro, quer na requalificação da Avenida Dom João II, a conhecida Variante da Encosta. 

São remendos que não funcionam como deveriam apenas porque não há uma estratégia para a mobilidade, nem uma estratégia na sua implementação. Vão-se testando soluções avulsas e sem um padrão pré-definido. 

No quilómetro da Avenida 31 de Janeiro colocaram uma via bus que se vai interrompendo antes de cada cruzamento e que pouca gente respeita, e meia avenida passou a ser de duplo sentido. Não se percebe muito bem porquê só meia e porquê que a via bus não o é em toda a sua extensão. 

No quilómetro da Avenida da Liberdade colocaram, e bem, ciclovia, mas esqueceram-se das vias bus, reduziram o número de paragens dos TUB e reduziram o número de locais de cargas e descargas.

Ao longo da Avenida Dom João II e da Avenida Alfredo Barros gastaram milhões na renovação da ciclovia, repavimentação e introdução de algumas (poucas) novas passadeiras. Mas não colocaram nem uma única paragem de autocarro, nem previram em projeto que pudesse vir a ser colocada no futuro, ainda que seja uma reivindicação antiga daquela população e daquela União de Freguesias. A linha vai aparecer, remendando mais uma intervenção.

Tem sido esta a forma como o Município tem tratado os TUB ao longo dos anos: mal. Não lhes oferece as condições infraestruturais para poderem operar com a qualidade que a cidade precisa.

Este ano o Município e os TUB decidiram privatizar parte do serviço de transportes públicos: o serviço escolar que sempre existiu e agora baptizado como “School Bus para todos”. Com a gratuitidade dos transportes públicos provavelmente o caminho da empresa será a sua privatização total, visto que não conseguirá cumprir a legislação que a obriga a ter 50% de receitas próprias do total das receitas.

Ao nível dos transportes públicos muito há a dizer sobre a forma como o Município trata a sua empresa municipal. Antes de se olhar para o preço, que já é baixo e gratuito até aos 23 anos, devia-se olhar para a forma como o Município garante que os TUB conseguem cumprir os horários, sobretudo em hora de ponta, e como conseguem, sem aumento de frota, aumentar a frequência. Para garantir isso, o Município precisa de criar as condições para que os TUB tenham prioridade, circulem sem trânsito e, assim, aumentem a sua velocidade comercial, mantendo-a ao longo de todo o dia. Só assim o sistema é fiável. Enquanto estiver “dependente do trânsito”, não há confiança no sistema, e não se vai conseguir captar mais passageiros para os TUB. 

Atualmente, mesmo com um aumento de venda de passes, apenas cerca de 8% das deslocações em Braga são feitas nos TUB. O número de validações aumentou, mas o total de deslocações também. É pouco para uma cidade que se diz apostada no transporte público. E porque não são atraídas mais pessoas para o uso dos transportes públicos? Pelo preço? Por não ser grátis? Não. Porque o Município não garante aos TUB as condições para que estes sejam fiáveis, que cumpram os horários, que sejam rápidos entre o ponto A e o ponto B.

Se para os TUB há um problema da infraestrutura, que o Município não proporciona as condições adequadas, na ferrovia o problema é mesmo a falta de oferta, onde já existe infraestrutura. Repare-se, da Estação de Arentim à Estação de Maximinos o comboio demora apenas 12 minutos. De carro, em hora de ponta, anda pelos 30 minutos. Qual é então o problema? Há um comboio de hora em hora a parar em Arentim. Não é oferta suficiente para atrair a população.

A somar a isto tudo, a partir das 20h, a oferta de transportes públicos em Braga é praticamente inexistente.

A mobilidade induz-se.