Durante décadas a ferrovia desapareceu das conversas sobre o futuro de Braga. Continuamos a discutir estradas, variantes, circulares, estacionamento e congestionamento. Mas deixamos de discutir uma das infraestruturas que mais transformou cidades e regiões ao longo dos últimos dois séculos.
Pela primeira vez em muitas décadas, o próprio Estado voltou a colocar a ferrovia no centro da discussão sobre o desenvolvimento do território. O Plano Ferroviário Nacional não fala apenas de novas linhas. Fala de uma nova forma de pensar a mobilidade, a economia e a organização territorial. Isso é particularmente relevante para Braga e para o Minho.
Durante demasiado tempo habituamo-nos à ideia de que a única resposta para o crescimento das deslocações seria construir mais estradas. Mas as estradas têm limites físicos, financeiros e ambientais. Nenhuma região consegue crescer indefinidamente apenas através da expansão da infraestrutura rodoviária. É por isso que a ferrovia voltou à agenda.
Durante décadas passámos a olhar para o congestionamento como uma inevitabilidade. Todos os dias milhares de pessoas entram e saem de Braga para trabalhar, estudar, consultar um médico, fazer compras ou visitar familiares. A maioria dessas deslocações é feita de automóvel porque, simplesmente, não existe uma alternativa competitiva.
A ferrovia não resolve todos os problemas. Mas permite responder precisamente às deslocações onde o automóvel é menos eficiente: as deslocações pendulares de média distância, realizadas diariamente por milhares de pessoas entre os principais centros urbanos da região.
Importa também não confundir os desafios. Cerca de 79% das deslocações realizadas pelos Bracarenses acontecem dentro do próprio concelho. A principal resposta para essas deslocações passa por melhorar a mobilidade urbana. Mas para as ligações entre Braga e os concelhos vizinhos a ferrovia pode desempenhar um papel decisivo.
Todos os dias existem movimentos intensos entre Braga, Guimarães, Barcelos, Vila Verde, Famalicão, Viana do Castelo e outros concelhos vizinhos. A economia, o ensino superior, os serviços de saúde e o emprego já funcionam à escala regional. A mobilidade continua, porém, excessivamente dependente da estrada e do automóvel. E é precisamente aí que a ferrovia pode fazer a diferença.
Durante muito tempo esta discussão parecia pertencer ao domínio das utopias. Hoje já não é assim. O Plano Ferroviário Nacional admite aquilo que durante muitos anos parecia impossível de discutir: a possibilidade de esta região vir a ser servida por um sistema Tram-Train, capaz de funcionar simultaneamente como comboio regional e como elétrico urbano.
O que devia surpreender não é o facto de o Plano Ferroviário Nacional falar do Tram-Train. O que devia surpreender é Braga não estar a liderar essa discussão. Poucas regiões portuguesas combinam uma cidade principal com forte procura urbana, uma rede de cidades próximas, elevadas relações pendulares e uma procura potencial significativa de transporte público regional.
A questão já não é saber se a ferrovia pode voltar a ter um papel relevante no desenvolvimento da região. A questão é perceber se queremos liderar essa transformação ou limitar-nos a assistir a ela. O Plano Ferroviário Nacional fala também da alta velocidade e das novas ligações ferroviárias nacionais e internacionais. Mas mais importante do que uma infraestrutura específica é a visão que lhe está associada.
Pela primeira vez em muitos anos existe uma estratégia nacional que reconhece a importância dos carris para organizar o território e ligar pessoas, cidades e regiões.
O futuro está todo por fazer. Nenhum plano, por si só, transforma uma região. Mas pela primeira vez em décadas existe uma visão ferroviária para o território.
Pela primeira vez em décadas o futuro voltou a estar desenhado sobre um mapa. E nesse mapa há carris.
