Braga já teve carris onde circulava o elétrico. Hoje pode parecer estranho imaginá-lo, mas durante décadas os carris fizeram parte da vida quotidiana da cidade. Numa altura em que Braga tinha cerca de 35 mil habitantes, o elétrico passava de 10 em 10 minutos. Ainda há Bracarenses que se lembram dele. Outros ouviram os pais e os avós falar do elétrico que ligava pessoas, lugares e memórias. Aquilo que hoje muitos consideram uma ideia futurista já fez parte da nossa história.
Enquanto em Braga os carris desapareceram, muitas cidades europeias seguiram o caminho inverso. Recuperaram elétricos, construíram metros ligeiros, e reforçaram sistemas ferroviários urbanos e regionais.
Na Europa temos muitas cidades exemplo desta realidade. Algumas bem conhecidas de muitos Bracarenses. São exemplos disso Zurich, Freiburg-im-Breisgrau, Sevilha, Alicante, Valência, Cádiz, Nantes, Estrasburgo ou Karlsruhe.
Braga olha para o elétrico como uma memória do passado. Muitas cidades europeias olharam para ele como uma solução para o futuro. Mas o debate não é sobre nostalgia. Não queremos recuperar o elétrico (Tram) porque existiu. Queremos voltar a pensar Braga sobre carris, porque os desafios continuam a existir.
Braga cresceu muito nas últimas décadas. Hoje tem mais habitantes, mais estudantes, mais emprego, mais deslocações e uma influência regional muito superior àquela que tinha quando o elétrico circulava nas suas ruas.
Todos os dias entram e saem do concelho milhares de pessoas provenientes dos concelhos vizinhos. Cerca de 19% das deslocações diárias de Braga têm origem ou destino fora do concelho. E 79% deslocam-se dentro do concelho. Perante estes desafios, continuamos a discutir quase exclusivamente soluções rodoviárias. Mais vias, mais nós, mais estacionamento, mais capacidade para o automóvel. Mas raramente discutimos sistemas de transporte capazes de transportar muitas pessoas utilizando menos espaço.
Os carris não são apenas uma infraestrutura de transporte. São também uma forma de organizar o território. Quando uma cidade investe num sistema ferroviário ou num elétrico moderno (Tram), está a criar previsibilidade. Está a permitir que habitação, comércio, serviços e emprego se organizem em torno de uma rede estruturante e permanente.
Talvez por isso tantas cidades europeias tenham regressado aos carris. Não por nostalgia, mas porque perceberam que os sistemas sobre carris continuam a ser uma das formas mais eficientes de transportar pessoas e estruturar o crescimento urbano.
Durante décadas discutimos BRT, variantes, circulares e estacionamento. Discutimos quase tudo, menos ferrovia. Durante demasiado tempo discutimos apenas como fazer circular mais carros em Braga. Está na altura de discutirmos como movimentar mais pessoas de forma eficiente e eficaz. Porque o objetivo de um sistema de mobilidade não é mover automóveis. É mover pessoas.
O debate sobre os carris não é um debate sobre o passado. É um debate sobre a Braga que queremos deixar para as próximas gerações. Sobre a forma como nos vamos deslocar, como vamos crescer e como nos vamos ligar ao resto da região.
Braga não precisa de voltar aos carris por nostalgia. Precisa de voltar aos carris porque quer ter futuro. Os carris já fazem parte da nossa história. Está na altura de voltarem a fazer parte da nossa vida. Porque uma cidade que deixa de pensar sobre carris acaba inevitavelmente por pensar apenas sobre rodas.
